Neste artigo:
Em resumo
Este guia mostra o caminho prático, em sete passos:
- Levantar perigos psicossociais com fontes variadas, como pesquisas de clima, dados de RH e o canal de denúncias.
- Avaliar e classificar os riscos no Inventário de Riscos.
- Redigir as seções psicossociais do PGR e definir plano de ação com responsáveis.
- Usar o canal de denúncias e investigações com trilha de auditoria como fonte contínua de dados e evidência para revisão do PGR.
A fiscalização não exige uma metodologia única, mas cobra coerência entre identificação, avaliação, medidas e registros. Um PGR estático ou com riscos genéricos é o caminho mais curto para autuação.
O que a NR-1 exige sobre riscos psicossociais no PGR
A Portaria MTE nº 1.419, de 27 de agosto de 2024 reescreveu o capítulo 1.5 da NR-1 e incluiu de forma expressa os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no GRO. O subitem 1.5.3.1.4 deixa claro que o gerenciamento abrange riscos físicos, químicos e biológicos, acidentes e fatores ergonômicos, incluindo os psicossociais.
Três pontos práticos dessa base legal:
- Vigência em 26 de maio de 2026. A Portaria MTE nº 765, de 15 de maio de 2025 prorrogou o início da vigência do novo capítulo 1.5 até 25 de maio de 2026. Na prática, o texto novo passou a valer em 26/05/2026.
- Dupla visita com caráter orientativo no início. Segundo as Perguntas e Respostas GRO-PGR do próprio governo, nos 90 dias seguintes à vigência a Inspeção do Trabalho tende a priorizar orientação e notificação. Depois desse período, pode haver autos de infração. O período orientativo não é dispensa de adequação.
- Não existe ferramenta oficial única. A norma permite que a organização escolha as técnicas e metodologias de identificação e avaliação, desde que tecnicamente fundamentadas e coerentes com a realidade do trabalho. O auditor avalia o processo, não a marca da ferramenta.
Para contexto histórico da norma e do GRO, o portal Guia Trabalhista consolida o texto da NR-01, e o guia da Engehall sobre a NR-01 atualizada e o GRO resume as mudanças do ciclo de 2024/2026. A revista do TRT da 9ª Região discute a importância da NR-1 como base das demais normas.
Se você ainda precisa do contexto geral da norma, comece pelo nosso guia completo de NR-1 e riscos psicossociais. Este artigo assume esse contexto e foca na execução.
Passo 1: levantamento inicial de perigos psicossociais
Antes de escrever qualquer coisa no PGR, você precisa saber o que existe na sua empresa. Use mais de uma fonte, porque cada uma enxerga um pedaço do problema:
- Pesquisas de clima e questionários específicos sobre carga de trabalho, jornadas, metas e relacionamentos.
- Dados de RH: absenteísmo, turnover, afastamentos por transtornos mentais, horas extras por equipe.
- Entrevistas e escuta de trabalhadores, incluindo lideranças de linha, não só o RH.
- Registros de acidentes e afastamentos relacionados à saúde mental.
- Canal de denúncias: relatos de assédio, sobrecarga e conflitos são dados reais sobre como o trabalho é vivido.
O Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho, do Ministério do Trabalho, cita exemplos como sobrecarga de trabalho e assédio e suas derivações como perigos típicos desse grupo.
Dica prática: organize o levantamento por processo ou função, não por departamento inteiro. "Atendimento com metas agressivas e jornadas longas" é um perigo aproveitável. "Estresse" não é.
Passo 2: classificação e avaliação para o Inventário de Riscos
Com os perigos listados, aplique a Avaliação de Perigos e riscos (AEP), com critérios de probabilidade e gravidade definidos por você e registrados por escrito. Perguntas que ajudam a calibrar:
- Qual a severidade possível se o risco se concretizar (afastamento, adoecimento coletivo, denúncia pública)?
- Quantas pessoas estão expostas?
- Já existem controles? Eles funcionam?
O resultado entra no Inventário de Riscos, que a NR-1 exige no subitem 1.5.7.3.2. Lá ficam, entre outros campos, o perigo, o risco, os critérios da avaliação, as medidas de prevenção e o plano de ação associado.
Um alerta importante da fiscalização: a ausência de riscos psicossociais no Inventário não é irregularidade por si só, se a empresa conseguir demonstrar, com metodologia e evidências, que fez um processo adequado de identificação e decidiu de forma fundamentada que tais fatores não existem no contexto dela. Ou seja: ausência justificada vale; ausência por omissão não vale.
Passo 3: redação das seções psicossociais do PGR e do Inventário
Agora escreva. Uma seção psicossocial útil do PGR normalmente contém:
- Escopo: quais processos, funções e unidades foram avaliados.
- Metodologia: quais instrumentos você usou e por quê, com justificativa técnica.
- Perigos identificados, com a origem de cada dado (pesquisa, RH, relatos).
- Avaliação e classificação, com os critérios aplicados.
- Medidas de prevenção existentes e propostas.
- Dados de participação dos trabalhadores, porque a NR-1 reforçou essa exigência.
Evite copiar texto genérico de modelos da internet. O auditor compara o que está escrito com o que observa na empresa, em entrevistas com trabalhadores. Se o PGR diz "sobrecarga controlada por redistribuição de tarefas" e a equipe relata o contrário no canal de denúncias, a incoerência é a evidência do problema.
Passo 4: plano de ação com responsáveis e prazos
O plano de ação precisa observar no mínimo os requisitos do subitem 1.5.5.2 da NR-1. Na prática, cada medida deve ter:
- Descrição objetiva da medida (ex.: revisar metas da equipe X, capacitar lideranças sobre assédio).
- Responsável nomeado, não "RH" genérico.
- Prazo e forma de acompanhamento.
- Critério de eficácia: como você vai saber se funcionou.
Medidas de prevenção psicossocial costumam ser organizacionais: ajuste de carga e prazo, clareza de papel, qualidade da liderança, processos de investigação rápidos. Treinamento isolado raramente resolve um problema de organização do trabalho.
Passo 5: canal de denúncias como fonte contínua de identificação e monitoramento
Aqui o ciclo muda de forma. Pesquisas de clima são retratos periódicos. O canal de denúncias é um sensor contínuo: ele capta assédio, sobrecarga, discriminação e conflitos enquanto acontecem, muitas vezes antes de aparecerem em qualquer pesquisa.
Um canal dedicado, com anonimato técnico, aumenta a disposição de relatar, porque reduz o medo de retaliação. A SpeakSafely, por exemplo, recebe relatos por WhatsApp, portal web, e-mail, Slack, telefone e outros canais, com anonimato técnico e gestão de investigações com trilha de auditoria, para equipes de RH e Compliance.
Para alimentar o PGR com esses dados, estabeleça uma rotina simples:
- Classifique os relatos por tema (assédio, sobrecarga, jornada, discriminação).
- Cruze os temas com as funções e processos do Inventário de Riscos.
- Use picos e tendências como gatilho de nova avaliação daquele processo.
- Registre essa análise periodicamente como parte do GRO.
Dúvidas pontuais sobre o tema? O nosso FAQ de NR-1 e riscos psicossociais responde perguntas frequentes que não cabem neste tutorial. E se você quiser o detalhamento dos requisitos do canal, veja canal de denúncias NR-1: requisitos, PGR e evidências.
Passo 6: investigação auditável de relatos como evidência no PGR
Relatos viram evidência de gerenciamento quando são investigados de forma documentada. Cada investigação deve registrar:
- Prazo definido e cumprido.
- Responsável pela condução.
- Histórico completo das etapas e da decisão final.
- Medidas corretivas derivadas, ligadas ao risco correspondente no Inventário.
É exatamente esse padrão de prazos, responsáveis, histórico e trilha de auditoria que uma plataforma como a SpeakSafely automatiza. Quando o auditor perguntar "como vocês identificam e tratam riscos psicossociais?", o conjunto de relatos recebidos, investigações concluídas e medidas aplicadas responde melhor do que qualquer declaração no papel.
O detalhe que fecha o ciclo: a medida corretiva de uma investigação (ex.: troca de gestor, revisão de escala) deve aparecer também no plano de ação do PGR daquele processo. Assim, denúncia, investigação e gestão de risco contam a mesma história.
Passo 7: revisão periódica do PGR com indicadores
O PGR não é documento de gaveta. A NR-1 exige revisão quando houver mudanças e acompanhamento da eficácia das medidas. Indicadores simples que alimentam essa revisão:
- Número de relatos por tema e por área, trimestral.
- Tempo médio de investigação e percentual dentro do prazo.
- Percentual de medidas do plano de ação concluídas no prazo.
- Tendência de afastamentos e turnover nas áreas com risco avaliado alto.
Defina uma cadência fixa, por exemplo um comitê trimestral de RH, Compliance e SST, com ata registrada. Essa ata é evidência de revisão, e revisão é o que separa um GRO vivo de um PGR estático.
Erros comuns e como a fiscalização avalia
Segundo as orientações oficiais do governo, a análise fiscal combina documentos com a realidade observada. Os erros que mais aparecem:
- Riscos genéricos sem diagnóstico. Escrever "risco de estresse, severidade média" sem metodologia, fontes ou ligação com a organização do trabalho.
- PGR estático. Documento idêntico ano após ano, sem registro de revisão, mesmo com mudanças de estrutura ou novos relatos.
- Falta de coerência. O documento diz uma coisa, os trabalhadores contam outra. Entrevistas com trabalhadores fazem parte da verificação.
- Ausência de evidência de execução. Plano de ação sem datas cumpridas, investigações sem histórico, medidas sem verificação de eficácia.
O critério central, segundo o governo, não é ter determinado risco pré-marcado no inventário, e sim demonstrar um processo consistente de identificação, avaliação, controle e acompanhamento.
Próximos passos e limitações
Comece pelo Passo 1 nesta semana: reúna as fontes que você já tem (clima, RH, canal de denúncias) e liste os perigos de dois ou três processos críticos. O resto do fluxo fica muito mais rápido com esse material na mão.
Duas limitações importantes para registrar com a equipe:
- O PGR gerencia riscos ocupacionais; ele não substitui laudo psicológico individual nem tratamento clínico. Se um trabalhador está adoecido, o caminho dele passa pela saúde, com as medidas do plano de ação atuando na causa organizacional.
- Metodologias e datas podem mudar por novas portarias. Confira sempre o texto vigente da NR-1 na página oficial do governo antes de conclusões críticas.
Se você quer estruturar o canal de denúncias que alimenta esse ciclo de relatos, investigações e evidências para o PGR, solicite uma proposta da SpeakSafely e fale com um especialista sobre o Plano Business e a implantação do canal na sua empresa.
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica ou de segurança do trabalho.
Artigo publicado por: Equipe SpeakSafely · Data de publicação: 22 de outubro de 2026 · Sobre a SpeakSafely