Compliance

Código de conduta: o que é, como elaborar e como aplicar na empresa

Resposta rápida: um código de conduta é o documento que traduz os valores da empresa em regras práticas de comportamento, abrangendo tópicos como assédio, conflito de interesses, corrupção e uso de recursos da empresa. Ele só funciona quando está conectado a um canal de denúncias e a um processo real de investigação.

Por , Cofundador e CEO — SpeakSafely · Publicado em 22 de outubro de 2026 · 16 min de leitura

Código de conduta empresarial: elaboração, comunicação e canal de denúncias

Em resumo

Para elaborar o seu código de conduta, siga o caminho: diagnóstico, comitê de redação, estrutura do documento, linguagem acessível, aprovação e registro de ciência, comunicação, vínculo com o canal de denúncias e manutenção periódica.

Comparativo: passos para elaborar e aplicar um código de conduta na empresa
  • Diagnóstico primeiro: entenda os riscos reais da sua operação antes de escrever.
  • Comitê multifuncional: RH, jurídico, compliance e lideranças escrevem juntos.
  • Linguagem acessível: se o colaborador não entende, a regra não existe na prática.
  • Comunicação planejada: divulgar o código é um passo próprio, não um detalhe.
  • Canal de denúncias vinculado: o código precisa explicar como denunciar e proteger quem denuncia.
  • Manutenção: revise o documento a cada dois anos ou após mudanças legais e crises éticas.

O que é um código de conduta

Um código de conduta é um documento formal que define como as pessoas na empresa devem agir no dia a dia. Ele transforma valores abstratos, como integridade e respeito, em regras concretas: o que é permitido, o que é proibido e o que acontece quando alguém descumpre.

Checklist: o que é um código de conduta empresarial

Grandes empresas publicam seus códigos publicamente. É o caso da Technoform, que apresenta seu documento como um resumo de valores e ética, e da Graco, com seu código de ética e conduta empresarial. Em inglês, o termo é code of conduct, como mostra a entrada do dicionário Collins.

Código de conduta e código de ética: qual a diferença

Na prática brasileira, os dois termos se misturam. Uma forma útil de separar:

  • Código de ética foca em princípios e valores. Responde a perguntas como "como queremos ser vistos?".
  • Código de conduta foca em regras aplicáveis. Responde a "o que posso e o que não posso fazer nesta situação?".

Muitas empresas adotam um único documento chamado "código de ética e conduta", com uma parte de princípios e outra de regras. Se esse for o seu caso, garanta que a parte de conduta seja específica o suficiente para orientar decisões reais.

Por que o código de conduta importa no Brasil

Para empresas brasileiras, o código de conduta deixou de ser apenas um documento bonito. Ele aparece em exigências legais e em diretrizes oficiais:

Checklist: por que o código de conduta importa no Brasil — Lei Anticorrupção, estatais, Lei 14.457 e LGPD
  • Lei Anticorrupção (Lei 12.846/2013): as diretrizes de programa de integridade publicadas pela Controladoria-Geral da União (CGU) apontam o código de conduta como peça central do programa, junto com canal de denúncias, proteção contra retaliação, sanções e treinamento periódico.
  • Lei 13.303/2016 (empresas estatais): o art. 9º, § 1º exige que empresas públicas e sociedades de economia mista elaborem e divulguem um Código de Conduta e Integridade, com canal de denúncias, proteção contra retaliação, sanções e treinamento anual.
  • Lei 14.457/2022: empresas com CIPA devem incluir regras de conduta sobre assédio sexual e violência no trabalho em suas normas internas, com ampla divulgação e procedimentos para receber e apurar denúncias, garantido o anonimato de quem denuncia.
  • LGPD: se o código trata de confidencialidade e do tratamento de dados em investigações internas, ele precisa dialogar com a política de privacidade da empresa.

Para aprofundar a estrutura maior que envolve o código, veja nosso guia sobre programa de integridade e seus cinco pilares.

Como elaborar um código de conduta em 8 passos

Passo 1: faça um diagnóstico antes de escrever

Não comece pelo texto. Comece pela realidade da empresa:

  • Histórico de incidentes: o que já aconteceu? Assédio, fraude, conflito de interesses, uso indevido de recursos?
  • Avaliação de riscos: quais setores têm mais exposição? Compras, vendas, relacionamento com clientes?
  • Lacuna entre valores declarados e praticados: o que a empresa diz valorizar e o que as pessoas realmente vivenciam?

Esse diagnóstico evita o erro mais comum: escrever um código genérico que não tem nada a ver com os riscos reais do negócio.

Passo 2: monte um comitê de redação multifuncional

Um código escrito por uma única pessoa, ou só pelo jurídico, tende a ficar distante da realidade operacional. Reúna RH, jurídico e/ou compliance, alta gestão e representantes das unidades de negócio.

Ao final, o documento precisa de aprovação formal da alta direção. Isso dá legitimidade e sinaliza que a empresa leva o conteúdo a sério.

Passo 3: defina a estrutura do documento

Uma estrutura previsível ajuda o leitor a encontrar o que precisa. Uma estrutura típica inclui:

Seção O que abrange
Propósito e escopo Para quem vale e o que se espera do documento
Valores e princípios A base ética que fundamenta as regras
Relações no trabalho Respeito, combate ao assédio e às violências
Conflito de interesses Como identificar, declarar e tratar situações de conflito
Anticorrupção Presentes, facilitação, relacionamento com setor público
Uso de recursos Ativos, sistemas, informações da empresa
Confidencialidade e dados Regras de sigilo e tratamento de dados pessoais
Canal de denúncias Como denunciar, anonimato e proteção contra retaliação
Consequências Sanções aplicáveis a violações
Governança Quem aprova, aplica e revisa o código

Duas seções merecem atenção especial. Se a sua empresa tem CIPA, as regras de conduta sobre assédio sexual e violência são exigência da Lei 14.457, e você pode se aprofundar em o que a lei exige da sua empresa. E a seção de assédio em geral precisa de detalhamento prático, não de uma frase genérica; veja como denúncias de assédio moral e sexual devem ser tratadas.

Passo 4: escreva em linguagem acessível

Um código que ninguém entende não protege ninguém. Três práticas fazem diferença:

  • Frases ativas e curtas. "O colaborador não pode aceitar presentes acima de R$ 100" funciona melhor que um parágrafo rebuscado sobre liberdades indevidas.
  • Exemplos concretos. Descreva situações reais: um cliente oferece jantar, um fornecedor pede "taxa de agilização", um colega faz piadas repetidas. Mostre o que fazer em cada caso.
  • Teste de compreensão. Peça para pessoas fora do comitê lerem seções e explicarem com as próprias palavras. Se elas erram, reescreva.

Seções de alto risco, como anticorrupção e assédio, merecem validação final do jurídico: linguagem simples não pode abrir margem para interpretações que enfraqueçam a regra.

Passo 5: formalize a aprovação, comunique o código e registre a ciência

Aprovar e publicar não basta. Duas coisas precisam acontecer depois da assinatura da alta direção.

Primeira: comunicação planejada.

Um código divulgado só por e-mail no dia do lançamento cai no esquecimento em semanas. Um plano de divulgação realista inclui:

  • Lançamento com sinal da liderança: uma mensagem ou reunião em que a alta direção explica por que o código existe e o que a empresa espera. O tom vem de cima, não do RH sozinho.
  • Acesso permanente e fácil: o documento precisa ficar disponível o tempo todo, em lugar que o colaborador conheça, como intranet ou página pública, em versão acessível. Um código que só existe em um PDF difícil de achar perde força em auditoria e no dia a dia.
  • Reforço contínuo: retomar trechos do código em treinamentos, comunicações internas e discussões de casos reais, em vez de tratar o lançamento como evento único.

Se a sua empresa tem CIPA, a divulgação deixa de ser boa prática e passa a ser exigência: a Lei 14.457 pede ampla divulgação das regras de conduta sobre assédio sexual e violência a todos os empregados.

Segunda: evidência de que cada colaborador leu e conheceu o código:

  • Registro de ciência rastreável, com data e hora, em contratação e em reciclagens
  • Assinatura digital ou aceite no sistema de RH
  • Arquivo organizado para eventual apresentação em auditoria ou defesa administrativa

Esse registro é o que diferencia "a empresa tem um código" de "a empresa demonstra que sua equipe conhece o código".

Passo 6: conecte o código ao canal de denúncias

Aqui está o ponto que separa códigos de papel de códigos que funcionam. O documento deve explicar:

  • Como denunciar: quais canais existem (portal, telefone, WhatsApp, e-mail), com instruções claras e fáceis de encontrar
  • O que acontece com o relato: quem recebe, o que é feito com a informação e em quanto tempo a pessoa pode esperar retorno
  • Proteção contra retaliação: uma proibição expressa de retaliação a quem denuncia de boa-fé, com consequências para quem retaliar
  • Anonimato e confidencialidade: se e como é possível denunciar sem se identificar

Um código que menciona o canal em uma linha escondida no fim do documento praticamente garante que os relatos não vão chegar. Se você está estruturando ou revisando seu canal, o guia completo sobre canal de denúncias e o checklist para escolher o canal ideal ajudam nessa decisão.

Passo 7: defina o caminho do relato à investigação

A denúncia recebida precisa de um destino claro. Um fluxo típico:

  1. Triagem e admissibilidade: o relato é avaliado quanto a materialidade e relevância
  2. Prazo e responsável: cada caso recebe um responsável e um prazo de tratamento
  3. Apuração: coleta de evidências, entrevistas e análise
  4. Causa raiz: o que permitiu a violação? Falha de processo, falta de treinamento, conduta individual?
  5. Sanção e remediação: consequências proporcionais, aplicadas de forma consistente
  6. Trilha de auditoria: cada ação fica registrada, com histórico verificável

Sanções aplicadas de forma inconsistente, tolerando gestores e punindo apenas a base, corroem a credibilidade do código rapidamente. E a trilha de auditoria é o que permite demonstrar, depois, que o processo foi conduzido com seriedade.

Passo 8: treine e revise com agenda definida

  • Treinamento periódico: capacitação anual é o padrão citado nas diretrizes de integridade, tanto para colaboradores quanto para administradores
  • Revisão agendada: uma boa referência de mercado é revisar o documento a cada dois anos
  • Gatilhos extraordinários: mudanças legais relevantes, fusões e aquisições, crises éticas ou um padrão de denúncias em um mesmo tema justificam revisão fora do calendário

Erros comuns ao criar um código de conduta

  • Copiar um template genérico sem adaptar aos riscos do negócio
  • Deixar a redação nas mãos de uma única pessoa ou de um único departamento
  • Não registrar a ciência dos colaboradores de forma rastreável
  • Mencionar o canal de denúncias de forma superficial, sem explicar como usá-lo
  • Nunca revisar o documento depois da publicação
  • Aplicar sanções de forma inconsistente entre níveis hierárquicos

Onde uma plataforma entra nessa história

Quando o código é aprovado e divulgado, o elo que costuma faltar é o mecanismo de aplicação: receber relatos, conduzir investigações e manter o histórico. É aí que uma plataforma de canal de denúncias como a SpeakSafely se encaixa: ela recebe denúncias por WhatsApp, portal web, e-mail, Slack, telefone e outros canais, com anonimato técnico, e organiza a gestão das investigações com prazos, responsáveis, histórico e trilha de auditoria, separando fluxos de ouvidoria e denúncias com governança própria.

Perguntas frequentes

O código de conduta é obrigatório?

Para empresas privadas em geral, não existe uma lei que exija o documento por si só. Mas ele é obrigatório para empresas estatais pela Lei 13.303/2016, e empresas com CIPA precisam de regras de conduta sobre assédio sexual e violência nas normas internas pela Lei 14.457/2022. Na prática, também pesa na dosimetria de sanções da Lei Anticorrupção: um programa de integridade estruturado, que inclui o código, é um atenuante reconhecido.

O que deve conter um código de conduta?

No mínimo: propósito e escopo, valores, regras sobre assédio e relações no trabalho, conflito de interesses, anticorrupção, uso de recursos, confidencialidade, canal de denúncias com proteção contra retaliação, sanções e governança. Para estatais, a lista do art. 9º, § 1º da Lei 13.303/2016 funciona como referência de conteúdo mínimo.

Como provar que os funcionários leram o código?

Com um registro de ciência rastreável: aceite eletrônico ou assinatura com data e hora, vinculado a cada colaborador, mantido em local acessível para auditorias. Registros dispersos em e-mails e impressos dificultam essa prova.

Com que frequência o código deve ser revisado?

Uma revisão a cada dois anos é uma referência comum de mercado. Além disso, revise sempre que houver mudança legal relevante, reestruturação da empresa, fusão ou aquisição, ou uma crise ética que exponha lacunas no documento.

Código de conduta substitui o código de ética?

Não necessariamente. Muitas empresas unificam os dois em um único documento de ética e conduta. O essencial é que as regras práticas de conduta existam de forma específica, e não apenas princípios genéricos.

Próximo passo

Se o seu código já existe mas o canal de denúncias ainda funciona por e-mail informal, ou se você está começando do zero, falar com um especialista ajuda a avaliar o que a implantação exige na sua realidade. Você pode solicitar uma proposta da SpeakSafely para avaliar o Plano Business e a implantação do canal de denúncias da sua empresa, ou falar com a gente pelo WhatsApp.

Este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica.

Artigo publicado por: Equipe SpeakSafely · Data de publicação: 22 de outubro de 2026 · Sobre a SpeakSafely

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